Texto crítico de Mirtes Marins de Oliveira para a exposição: NO BODY, Galeria Virgílio, 2017

NO BODY, EVERYWHERE AND FOREVER

" A ideia de um museu laboratório, em consonância com o debate artístico e expositivo internacional, para que jovens artistas pudessem desenvolver seus trabalhos conceituais e processuais foi premissa das ações do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) nas exposições “Jovem Arte Contemporânea” (JACs), desde o início dos anos 1960. Essa prática passa a ser mais radical ao final da década e início dos anos 1970 consolidando as atividades dirigidas por Walter Zanini e sua equipe, e oferecendo para aquela geração um espaço de visibilidade. Dessa forma, o Museu contornou atos de censura recorrentes no período da ditadura, tornando-se lugar de divulgação e debate cultural.

As JACs, o que hoje esclarece o interesse que despertam, borraram as noções artísticas e também políticas propondo imersão em processos vivenciais, investindo na desmaterialização do objeto artístico, na desconstrução da estereotipia ideológica e elegendo o corpo como eixo incontornável para a liberação em todas as dimensões da vida.

Silvio Dworecki foi participante da ebulição das JACs dos anos 1970 e desde então exibe em seu trabalho - além da curiosidade e trânsito por variadas mídias e técnicas -  interesse nas representações da paisagem e do corpo, inclusive em suas semelhanças e sobreposições. Esta motivação inclui o exercício performático e contínuo, registrado a partir de fotografias, que se desdobram em anotações gráficas e pictóricas.

A ação inicial – as sombras de um corpo em performance – capturada em fotografias, é projetada e reconstruída em pinturas. Estas são realizadas novamente sob a mira da câmera fotográfica que gera novas tomadas, que passam a fazer parte de vídeos, outras pinturas e projetos.  Dessa forma, o trabalho é uma performance estendida que, em sua duração, se prolonga e se atualiza, ao ser revisada e recoberta por novas intervenções do corpo sobre o já realizado, que vão alterando a captura inicial. O que o artista apresenta em NO BODY são os indícios recolhidos de forma sistemática e recorrente que perfazem uma obra em continuum, na qual camadas sucessivas e simultâneas – de matérias, intervenções e significados – se sobrepõem infinitamente formando uma coleção ilimitada.

Esta performance de longa duração e seus documentos se ampliam para além das ações do artista, já que fotografias, pinturas e vídeos de NO BODY reafirmam ou se requalificam em relação a outros trabalhos quando colocados em outros contextos expositivos. Vinte anos atrás, seu livro Camadas de Tempo (1966-1997), celebrava seus 30 anos de carreira e já apontava para um horizonte no qual perduram os aspectos vivenciais e em busca de palimpsestos, do qual NO BODY é momento referencial."

 

 

"Elegant, mysterious and intriguing! Wonderful!"
Armen Elliott

 

 

Textos críticos – Agnaldo Farias, in: trechos do texto crítico para Silvio Dworecki, Camadas dotempo: 30 anos nas artes plásticas. Ed. Scipione Cultural 1997

1- “Saber o que são as coisas é empresa de quem se deu conta da logica especular que permeia o mundo. E é nesse arco ambicioso que encontro a trajetória de Silvio Dworecki”
2- “Uma trajetória que avança pela consciência que cada novo passo tem dos passos anteriores e há uma indubitável magia expressa no fato de as coisas acontecerem para além delas mesmas” Agnaldo Farias
3- “Magia que também se verifica nos processos e materiais em que as coisas, sempre mediadas pelo conhecimento e a imaginação vão se transmutando...”
4- “Processo que exalta os vários materiais empregados, a expressividade dos pigmentos, do papel, dos objetos salvados do anonimato, das recentes telas endurecidas com cimento.”
5- “Processo que se funda em um amplo leque de ações: aquele que sulca o grafite duro duro no papel, aquele que faz chover levemente o pigmento em pó, aquele que se crispa para melhor atacar, aquele que escava, dobra, distende, pendura, reúne, organiza...”
6- “É assim com Silvio Dworecki. Há nele um gosto pelo contato, pelo desejo de tocar entranhas das coisas, verificar as peculiaridades de cada matéria para depois, calcado na amizade e no reconhecimento mútuos, retirar o que lhe for possível.”
7- “Se há violência, porquanto todo o trabalho é feito sob o signo da força, da subordinação imperativa da matéria a um projeto, ela é em tom menor, quase uma adequação.”
8- “Melhor dizendo, o deflagrar de um movimento que a matéria com seu sono, seria incapaz de realizar sozinha.”

 

Texto crítico para a exposição: Da escolha da cor à construção da paisagem – Galeria SESC Paulista, 1980

“A paisagem é a noção de lugar, é um espaço onde a relação Homem/Natureza se modifica constantemente. É um espaço/lugar que pertene a todos. Por isso que o tema – paisagem me parece ser uma das formas de tratar o universal. Silvio, com esta série, se empenhou em conseguir esta síntese, ultrapassando a simples narração constrói, reconstruindo poeticamente um lugar da paisagem Urbana.”

Renina Katz

 

Texto crítico para a exposição: Especulando, Jarágua e Angra, Paulo Figueiredo Galeria de Arte, 1982

“Desenhávamos.
Desenhamos:
O já visto:
O ainda não visto.
Ou a própria Especulação.
Para chegar era necessário um roteiro
Um mapa, uma orientação qualquer.”

Flávio Motta

 

Texto crítico para a exposição de pinturas na Galeria Paulo Figueiredo

“É ver para viver
Reflexões sobre objetos, personagens, flores e cidades
São quadros de uma exposição.
Não podemos perde-la.
E são pinturas do Silvio.”

Paulo Mendes da Rocha

 

Texto crítico para a exposição: Ventos de Luz, MASP, 1992

“Um trabalho de construção plena pela conversão da cor em luz. Neste sentido há com certeza um caminho de boa trilha: ‘ventos de luz’.”

Evandro Carlos Jardim

 

Trechos do texto crítico para Silvio Dworecki, Camadas do tempo: 30 anos nas artes plásticas. Ed. Scipione Cultural 1997:

“Do lado de lá, com sua riqueza infinita, está o mundo. Há que conhece-lo: há que tocá-lo, sopesá-lo, auscultá-lo, acaricia-lo, fazê-lo compreender que, afinal, aquele que assim se aproxima, com cuidado e interesse, tem para ele uma relação fraterna. É assim com Silvio Dworecki. Há nele um gosto pelo contato, pelo desejo de tocar entranhas das coisas, verificar as peculiaridades de cada matéria para depois, calcado na amizade e no reconhecimento mútuos, retirar o que lhe for possível. Se há violência, porquanto todo o trabalho é feito sob o signo da força, da subordinação imperativa da matéria a um projeto, ela é em tom menor, quase uma adequação. Melhor dizendo, o deflagrar de um movimento que a matéria, com seu sono, seria incapaz de realizar sozinha.”

Agnaldo Farias